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Creatio Continua

*retirado do livro “Conversas com orson Welles”, de André Bazin

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Procuro sempre a síntese: é um trabalho que me apaixona, pois devo ser sincero em relação ao que sou e não passo de um experimentador; experimentar é a única coisa que me entusiasma. Não me interesso pelas obras de arte, pela posteridade, pela celebridade, apenas pelo prazer da própria experimentação: é o único domínio em que me sinto verdadeiramente honesto e sincero.

Não tenho devoção alguma ao que faço; é realmente sem valor aos meus olhos. Sou profundamente cínico em relação ao meu trabalho e à maioria das obras que vejo no mundo. Mas não sou cínico ao ato de trabalhar sobre uma matéria-prima. É difícil explicar. Nós, que fazemos profissão de experimentadores, herdamos uma velha tradição: alguns foram grandes artistas, mas nunca fizemos musas de nossas amantes.

Agora estou escrevendo e pintando, buscando um meio de gastar minha energia, pois passei a maior parte dos últimos anos correndo atrás de dinheiro; se fosse escritor, ou sobretudo pintor, não teria que fazer isto. Não posso passar o resto da minha existência em festivais ou em restaurantes mendigando fundos.

Trecho da entrevista Sobre Sentimentos e a Sombra, de C.G. Jung

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E o que é de fato o sentido de nossa existência?

Devemos ser todos tigres, tigres amáveis que só se alimentam de maçãs? Tigres vegetarianos – isso é simplesmente uma anormalidade, algo doentio. E assim é o homem que não vive na terra e a ela não paga seu tributo.

Simplesmente estamos expostos e precisamos justamente reconhecer o fato de que estamos expostos. Pericolosamente Vivere – a vida é um risco! E caso não seja, então nada aconteceu. Por isso podemos dizer juntamente com Voltaire no leito de morte quando o abade, o confessor, lhe perguntou: “O senhor se arrepende de todos os seus pecados, senhor Voltaire?” – Sim, meu pai, e sobretudo daqueles que jamais cometi. Isso é verdade, enormemente verdade!

Mas o que seríamos se todos nós fôssemos bons? O que seria? Seria absolutamente nada! Então não se necessitaria de religiões, de igrejas, de nada. Então nada aconteceria. Não haveria mais diferenças. Não existiria mais um declive. Não haveria mais objetivo, pois o objetivo já teria sido alcançado há muito tempo. Nasceríamos com harpas em nossas mãos e durante toda a nossa vida cantaríamos louvor e nada mais. Mortalmente fácil! Também não há energia sem declive. Declive significa opostos!

Quem não abriga os opostos dentro de si não está vivo. Ao invés disso, é um neurótico morto que apenas geme, mas não vive.

Loucura e Solidão

Texto publicado no blog inCast na coluna de novembro/2015

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Faz algum tempo que afirmo que os melhores roteiristas da atualidade preferem trabalhar para séries de TV do que para o Cinema; isso acontece, em parte, por causa da criação do papel de Showrunner nas emissoras (geralmente o escritor que é o ‘dono’ da ideia é que monta sua própria equipe para desenvolver e produzir um seriado, com bastante liberdade criativa). Um livro fundamental para entender o movimento intitulado de Era de Ouro da TV Americana é o Homens Difíceis, escrito pelo jornalista Brett Martin e que revela os bastidores de produções marcantes como Familia Soprano (HBO 1999/2007), The Wire (HBO 2002/2008), Breaking Bad (AMC 2008/2013) e Mad Men (AMC 2007/2015). Hoje as séries e canais VOD, como Netflix e Hulu, são onde estão a verdadeira experimentação cinematográfica e conteúdo adulto – isso é confirmado pela migração de grandes nomes como Scorsese, Spielberg e Woody Allen para essa nova maneira de storytelling. O fato é que a maioria do que é hoje produzido e distribuído em grande escala para o Cinema tem, infelizmente, o valor artístico de uma montanha-russa da Disney. Na primeira (e última) vez que entrei em uma sessão 4XD, saí molhado com esguichos de água e tonto pelo movimento da cadeira vibratória. O filme é o que menos importa.

Não tenho intenção de me aprofundar no assunto da indústria do Cinema ou no papel dos Showrunners – quem sabe em um próximo post. Comecei a escrever um pouco distraído, ouvindo Chet Baker e pensando em Mad Men; uma das séries que tem ‘permanecido’ comigo depois do fim. Volta e meia me surpreendo pensando em seus cenários enfumaçados e diálogos temperados com existencialismo. Estive recentemente em Nova York e caminhei sob os passos fictícios de Don Draper, e mais de uma vez fiquei em um balcão tomando um Old Fashion pensando no final da terceira temporada da série – que encerra com a pergunta de uma loira exuberante para um protagonista desiludido com o amor: “Você está sozinho?”.

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O pintor nova-iorquino Edward Hopper dizia que se ele pudesse expressar o que sentia em palavras, não existiriam motivos para pintar. O que transforma Mad Men em uma série especialmente boa é exatamente o que não é dito, o que fica implícito dentro da orgia americana de consumo, álcool e drogas. O criador da série Matthew Weiner escreve pelas entrelinhas mais do que uma história sobre a publicidade e a revolução cultural; Don Draper personifica a solidão esmagadora do homem moderno, a individualidade sepulcral das grandes metrópoles, o amor inventado para vender lingeries e a busca da felicidade como artifício para consumir Coca-Cola. É de um cinismo brilhante.

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Hemingway costumava dizer que para escrever um bom romance era preciso pensar nele como a ponta de um iceberg. Apenas o autor saberia o que está escondido nas profundezas de cada personagem, mas era absolutamente necessário que tudo estivesse lá. Uma boa história deve ser mais real do que a própria realidade. Uma das coisas que mais fascinam em Mad Men é a quantidade de camadas submersas em sua narrativa. Em um capítulo da primeira temporada Draper cita La Notte, obra-prima de Michelangelo Antonioni, como um de seus filmes favoritos – não por acaso, no mesmo episódio em que ele escapa com uma de suas amantes para uma casa de praia. Os nomes dos episódios e os enquadramentos de câmera também indicam o arcabouço referencial sobre o qual a série se sustenta; A Tale of Two Cities – romance de Charles Dickens que também é nome de um dos episódios – tem passagens brilhantes sobre a solidão humana em grandes metrópoles, e as pinturas de Edward Hopper certamente serviram como inspiração para a montagem dos takes durante a série (recortei parte do texto e fiz uma montagem para exemplificar o que estou falando. As referências estão abaixo).  

Enfim, uma grande narrativa possui infinitas camadas. O sabor inebriante de Mad Men vai permanecer comigo por mais algum tempo, reaparecendo periodicamente em um jazz dos anos 50 ou entre uma dose e outra de uísque misturado com laranja e angostura.

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Trecho de ‘A Tale of Two Cities’, de Charles Dickens. 

“Um fato extraordinário a merecer reflexão é o de que cada ser humano se constitui num profundo e indecifrável enigma para todos os demais. Sempre que entro numa grande cidade à noite, considero com solene gravidade que todas aquelas casas fechadas e escuras encerram seu próprio segredo, que cada aposento em cada uma delas oculta um mistério, que cada coração pulsando nessas centenas de milhares de peitos esconde algum segredo para o coração que está ao seu lado!

Alguma coisa de horror, até mesmo da Morte, tem a ver com esse fato. Não mais posso virar as folhas daquele querido livro que amei e em vão pretendi ler. Não mais posso contemplar as profundezas dessas águas insondáveis nas quais, à luz fugaz dos relâmpagos, vislumbrava tesouros enterrados e outras preciosidades submersas.

Meu amigo está morto, meu vizinho está morto, meu amor, a eleita de minha alma, está morta; e essa é a inexorável consolidação e perpetuação do segredo que sempre existiu nessa individualidade, e que eu próprio também carregarei comigo até o fim da minha vida. Dormirá, nos cemitérios desta cidade por onde agora passo, alguém mais inescrutável do que é para mim qualquer de seus habitantes vivos e ativos, ou do que sou eu próprio para eles


Montagem dos takes finais de Mad Men

Obras de Edward Hopper
Automat (1929) / Nighthawks (1942) / Office in a Small City (1953)

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“And death shall have no dominion.
Dead man naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan’t crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion. ”

Dylan Thomas 

Via Margutta, 110

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“Qual seu filme favorito?”

Essa é uma das perguntas que mais escuto de velhos amigos e novos conhecidos desde que comecei a trabalhar com cinema (depois do espanto inicial de “Cinema? No Brasil? Sério?” passar). Poucos entendem que é uma pergunta impossível: como escolher entre a Sicília de Corleone, a Espanha de Antonioni, a Manhattan em preto e branco ou o futuro de McFly? Dizer qual é meu filme favorito seria como escolher o dia mais importante da minha vida, e sou ruim com datas; minha memória é meio que um emaranhado de momentos que podem ter sido comprimidos em dias, semanas, meses, sonhos. Ao invés de apontar no calendário, prefiro carregar tudo comigo. Momentos são como chaveirinhos de lembrança, o que é especial eu deixo pendurado na bagagem até quebrar ou desaparecer.

Um momento desses aconteceu em um outubro de anos atrás, enquanto a chuva inundava as canaletas da estreita Via Margutta em Roma. Eu estava lá sozinho, encharcado, estômago vazio e levemente embriagado com Nero d’Avola. Era minha homenagem silenciosa para um dos caras que mudaram a minha vida. O maestro Federico Fellini morou ali com Giulietta Masina durante boa parte de sua carreira, criando universos. Hoje só resta uma pequena placa, maltratada pelo tempo. Um ditado popular romano diz que para o viajante conhecer verdadeiramente a Cidade Eterna é preciso “tomar café da manhã com o Papa e jantar com Fellini”. A alma da Itália é o sagrado e o profano caminhando lado a lado, de mãos dadas.

Lembro do cinema italiano como lembro das esquinas de Roma. Um lugar onde cada rosto me parece tão familiar, onde em cada piazza encontro uma tia, um sobrinho ou um gelato. A viagem de Rosselini é também minha viagem, e passeando pelas entranhas da Itália eu me redescobri. É um paradoxo, eu sei, mas para mim uma tarefa mais fácil do que indicar um filme é indicar um frame. Ele aconteceu quando assisti La Dolce Vita pela primeira vez: até hoje me emociono com o olhar de Valeria Ciangottini pouco antes das luzes se apagarem. É um convite para a aventura. É uma perda irreparável da inocência. Foi nesse segundo que decidi ser um cineasta.

O tempo corre e a chuva continua inundando a viela Margutta, batizada desde o Império Romano com o nome de “Gota do Mar”. Os anos passam e os momentos ficam. E os filmes nos assombram, nos maltratam, nos iluminam.

O fim é certo, mas a vida é doce.

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