Ceriblog

Creatio Continua

283 – Os Homens que Preparam

Saúdo todos os indícios da vinda de uma época mais viril e mais guerreira que irá recolocar a honra e a bravura! Porque essa época deve abrir caminho para outra mais elevada ainda, e recolher a força de que esta terá necessidade um dia – quando introduzir o heroísmo no conhecimento e fizer a guerra pelo pensamento e por suas consequências.

Aí está porque agora são necessários homens valentes que preparem o terreno; esses homens não podem surgir do nada – e tampouco da areia e escuma da civilização de hoje e da educação das grandes cidades: são necessários homens silenciosos, solitários e decididos, que saibam contentar-se com a atividade invisível que perseguem: homens que, com uma propensão à vida interior, procurem em todas as coisas o que há de superar nelas: homens que possuem neles a serenidade, a paciência, a simplicidade e o desprezo das grandes vaidades, bem como a generosidade na vitória e a indulgência com relação às pequenas vaidades de todos os vencidos; homens que tenham um juízo preciso e livre em todas as vitórias e na parte de acaso que há em toda vitória e toda glória; homens que tenham suas próprias festas, seus próprios dias de trabalho e de luto, habituados a comandar com segurança, igualmente prontos a obedecer quando for necessário, igualmente altivos como se seguissem sua própria causa tanto num como em outro caso; homens mais expostos, mais fecundos, mais felizes!

Porque, acreditem em mim! – O segredo para colher a existência mais fecunda e o maior prazer da vida é viver perigosamente. Construam suas cidades na beira do Vesúvio! Enviem seus navios para os mares inexplorados! Vivam em guerra com seus semelhantes e com vocês mesmos! Sejam salteadores e conquistadores, uma vez que não podem dominar e possuir: vocês, que procuram o conhecimento!

* da obra ‘A Gaia Ciência’, de Friedrich Nietzsche

Curta-Metragem Inventário (16/06/2018 – Folha de Londrina)

MATÉRIA DO JORNAL FOLHA DE LONDRINA (16/06/2018) ESCRITA POR MARIAN TRIGUEIROS. FOTO DE MARINA PIRES.

Quando o diretor de cinema Rafael Ceribelli leu pela primeira vez o roteiro do curta metragem “Inventário”, dois anos atrás, teve a certeza de que a história não ficaria guardada na gaveta. Era o primeiro texto do gênero da jornalista Alessandra Pajolla para conclusão de um curso para o Núcleo de Dramaturgia Audiovisual Londrina do Sesi, que, à época, nem imaginava o que estaria por vir a partir dali. A vida deu pequenas voltas e, pouco tempo depois, os dois trabalhariam juntos em outros projetos. Com a aproximação, durante um intervalo e outro, trocavam ideias para ajustes e melhorias do roteiro em questão. “A ideia central foi mantida; o texto foi sendo apenas lapidado e amadurecido”, lembra o diretor, sobre os tratamentos realizados posteriormente pela autora.

De lá para cá, a vontade de ambos em tirá-lo do papel e gravar foi tomando corpo. “Participei de praticamente todo o processo. Como seria o primeiro roteiro que não era meu que dirigiria, isso me ajudou a formatar a maneira como contaria essa história e transformaria a ideia em outra linguagem e imagens”, relata Ceribelli. A aprovação do roteiro no edital de Produção e Distribuição de Obras Audiovisuais, realizado em 2017 pela Seec (Secretaria de Estado da Cultura), em parceria com a Ancine (Agência Nacional de Cinema), foi o pontapé que precisavam. O edital contemplou sete projetos do interior do Estado, sendo seis de Londrina. “Começamos, então, a produção e a execução propriamente dita com todas suas aventuras, desafios e limitações.”

Uma dessas dificuldades seria encontrar espaços para a gravação das cenas, já que não há na cidade nenhum estúdio específico para a atividade. O levantamento de locações ficou a cargo do produtor de locação e designer de produção Bruno Marconato que, em sua pesquisa, incluiu pontos que fazem parte da história da população de Londrina, porém, não são, necessariamente, turísticos. Entre eles, está a redação de jornalismo da Folha de Londrina, localizada desde 1957 no Condomínio Conjunto Folha de Londrina (que integra o complexo composto pela sede do Grupo Folha de Comunicação, Edifício Angélica e Edifício Mônaco). Na lista de locação estão ainda o tradicional Estoril Bar (aberto em 1962 por Lucílio Antunes Anacleto), Ferro Velho Batista, Barbearia Londrina e Pedreira da região Sul.

GRAVAÇÕES

O primeiro dia de gravações aconteceu há duas semanas, na redação da FOLHA, e movimentou um grupo de cerca de 30 pessoas entre atores, figurantes e equipe técnica. “A história não é caracterizada na cidade, mas em um grande centro urbano não declarado. Porém, quem é de Londrina conseguirá reconhecer alguns locais”, explica Marconato. Para que os ambientes estivessem dentro da perspectiva visual da direção de fotografia comandada por Anderson Craveiro, foram feitas apenas pequenas intervenções, como retirada ou colocação de alguns objetos. “Todos esses lugares são espaços que trazem muito das características das pessoas que fazem parte dali. A redação da Folha de Londrina é um ambiente com vida, que realmente funciona, o que traz ainda mais veracidade para a cena”, pontua.

Na cena gravada, o protagonista – Ralf, um cartunista de meia idade vivido pelo ator Adriano Garib – caminha por parte da redação até chegar à sala de seu chefe vivido pelo jornalista e ator Jersey Gogel, quando leva um esporro e, depois, sai direto para o bar, neste caso, o Estoril (no Centro Comercial). Apesar dos poucos minutos, será possível ter uma ideia de onde trabalham os jornalistas da Folha de Londrina, cuja configuração das mesas está distribuída em “ilhas”, mostrando a dinâmica de uma redação de jornal. “Não entrava da redação do jornal há mais de 20 anos e, nestas gravações, revivi muita coisa e revisitei alguns lugares do período em que morei na cidade, de 1983 a 1994. A escolha das locações pela equipe foi de extrema sensibilidade, que também executou planos ambiciosos de filmagem”, comenta Garib, que é formado em Jornalismo pela UEL (Universidade Estadual de Londrina).

A história de “Inventário” trata de questões familiares e a relação conturbada com o pai que o cartunista Ralf tem de reviver após a morte dele. “Ralf é um artista talentoso e criativo que desenha em todos os cantos. Tem um perfil taciturno e ao mesmo tempo muito boêmio, como os jornalistas da velha guarda. Depois da morte do pai, ele precisa superar os traumas que o atormentam e acertar as contas com o passado”, detalha a roteirista Pajolla, que também é assistente de direção do curta. As locações escolhidas, bem como os atores e equipe técnica, segundo ela, trouxeram outras perspetivas ao roteiro que ganhou outras camadas com a participação dos profissionais. “A partir do momento em que se entrega o roteiro, a história não é mais sua. Ver de perto essa transformação não foi fácil, mas foi surpreendente”, avalia.

LONDRINA NA ROTA

No total, sete projetos de curtas foram contemplados neste mesmo edital com verba exclusiva para cidades do interior; cada um receberá o recurso de R$ 60 mil. Ao todo, o edital destinou no Estado R$ 3,75 milhões para a produção de curtas e longas-metragens, telefilmes e projetos de distribuição de obras cinematográficas em geral. Nesta lista, estão ainda os curtas-metragens londrinenses “Pequenos Delitos”, de Roberta Shizuko Takamatsu; “A Rainha Negra das Passarelas”, de Artur Ianckievicz Filho Cleo; “Redenção”, de Alessandra Pajolla, “Nigredo”, de Auber Silva Pereira Filho; e “O Padre e o Bento”, de André Luiz Bett Batista, da cidade de Maringá.

Curta-Metragem Inventário (31/05/2018 – Folha de Londrina)

Matéria do jornal Folha de Londrina (31/05/2018) escrita por Marian Trigueiros. Foto de Ricardo Chicarelli.

A redação de jornalismo da Folha de Londrina foi escolhida para ser um dos cenários de gravação do curta-metragem londrinense “Inventário”, com roteiro de Alessandra Pajolla e direção de Rafael Ceribelli. As cenas serão rodadas no próximo fim de semana e vão movimentar uma equipe de quinze pessoas no prédio pertencente ao Grupo Folha de Comunicação. No filme, que deverá ter cerca de 15 minutos de duração, o ator Adriano Garib (que cursou jornalismo na UEL – Universidade Estadual de Londrina) fará o papel de um chargista.

O roteiro trata das questões familiares e a relação conturbada com o pai que o protagonista tem de reviver após a sua morte. Este é o segundo curta da jornalista Alessandra Pajolla, que estreou no cinema recentemente com a gravação de “Redenção”. Ambos os filmes foram contemplados pelo edital de Produção e Distribuição de Obras Audiovisuais, realizado em 2017 pela Seec (Secretaria de Estado da Cultura), em parceria com a Ancine (Agência Nacional de Cinema), destinará R$ 60 mil para cada um, com verba exclusiva para cidades do interior do Estado.

Ao todo, o edital destinou no Estado R$ 3,75 milhões para a produção de curtas e longas-metragens, telefilmes e projetos de distribuição de obras cinematográficas em geral. NO total, sete projetos foram contemplados e, nesta lista, estão ainda os curtas-metragens londrinenses “Pequenos Delitos”, de Roberta Shizuko Takamatsu; “A Rainha Negra das Passarelas”, de Artur Ianckievicz Filho Cleo; “Nigredo”, de Auber Silva Pereira Filho; “Astro Negro”, escrito e dirigido por Gustavo Nakao (o primeiro a ser rodado), e “O Padre e o Bento”, de André Luiz Bett Batista, da cidade de Maringá.

Além destes, também foram contemplados com recursos outros dois projetos de Londrina: uma produção de telefilme – “O Bispo e o Comunista – a incrível herança cultural dos irmãos Sigaud”, da Produtora do Leste, no valor de R$ 180 mil; e uma distribuição de longa-metragem, com o longa “Leste-Oeste”, da Kinopus Audiovisual, no valor de R$ 125 mil.

Entrevista UEL FM

*texto e entrevista da Radio UEL FM (20/04/2018)

O setor audiovisual, um dos grandes integrantes da chamada indústria criativa, vem se firmando com destaque na economia brasileira. A meta do setor, de acordo com a Agência Nacional do Cinema,  ANCINE, é ser um dos cinco maiores mercados do audiovisual no mundo até 2020.

Na entrevista ao UEL FM Notícia, o cineasta Rafael Ceribelli e a diretora de cinema Alessandra Pajolla falam sobre o cenário positivo para o setor, demandas de trabalho profissional, editais de financiamento, e ainda sobre a vocação que Londrina tem para se tornar polo de produção audiovisual.

Ciao, Maestro

*parte da dissertação La Dolce Vita – O Homem Moderno em busca da Alma (2018)

Nuvens negras surgiam no horizonte daquele fim de tarde, e eu conseguia ouvir apenas o som de meus próprios passos sob as pedras que serviam de asfalto na entrada do porto de Rimini – local na cidade que marca o fim de suas praias de areia branca. Segui pelo imenso cais de madeira até chegar na borda do Mar Adriático.

Suas ondas eram suaves; o oceano parecia respirar como um cão adormecido.   

Algumas partes da Rimini moderna quase não tem o mesmo sabor que Fellini conheceu quando era criança. A partir do meio dos anos 70, a pequena vila de pescadores foi se transformando, gradualmente, em uma cidade de luzes, luxo e barulho; em temporadas de verão, o local é invadido por milhares de turistas que são principalmente da alta classe italiana, empresários a artistas do Leste Europeu e da Romênia.

Uma chuva fina começou a cair e tive que guardar minha câmera, erguer meu sobretudo e dar meia-volta. Ao longe, um pescador solitário começou a recolher seu equipamento. Na borda do cais, uma lona foi arrancada pelo vento de uma das atrações do circo local, revelando a enorme cabeça de um palhaço e parte de um carrossel. A lona parecia dançar por entre as sorveterias e barracas de doces, todas fechadas durante o inverno. Agradeci silenciosamente por estar ali.

Era minha segunda vez na Itália e a primeira em Rimini, e eu acabava de entrar na terceira semana de viagem. Após passar por mais de uma dúzia de vilas italianas, finalmente chegava na cidade de Fellini. Me hospedei em um hotel vazio, ao lado da estação de trem. O dono me entregou a chave do quarto e da porta principal do prédio. “Não tem mais ninguém aqui, se chegar depois das dez pode abrir o hotel e deixar a chave no balcão”.

Parecia o começo de um filme. Talvez fosse. Entrei no quarto só para deixar a mala, peguei a mochila com a câmera e o passaporte e sai com o espírito de peregrinação. Tinha o dia todo por ali, e Rimini não é grande. Não quis pegar o mapa no lobby de entrada.

Já estava frio no começo da tarde quando sai para caminhar em um pequeno bosque de frente para o hotel. Dois senhores de boina caminhavam e conversavam. Um deles estava com um galho nas mãos, como se fosse uma bengala. Andei por três quarteirões em direção à praia e, de repente, lá estava ele, como se tivesse surgido de minha própria imaginação: a silhueta do Grand Hotel de Rimini lembra a de um palácio à beira-mar, com o letreiro em formato clássico ainda guardando algo de imponente, de misterioso. Não é difícil entender por que o jovem Federico observava o local, fascinado. Em frente ao hotel a piazza Federico Fellini presta homenagem póstuma ao célebre diretor, representada pela escultura de uma câmera fotográfica.

Os portões de metal estavam abertos e caminhei até a entrada, onde um imenso jardim terminava em frente a uma fonte com carruagens, anjos e figuras mitológicas. O imponente hotel, sem ninguém a vista, tinha um ar que parecia melancólico. Seu jardim de verão e sua piscina estavam iluminados apenas pela luz amarela de seus postes internos. Não pude evitar de pensar na cena da dança onde Anita Ekberg é erguida acima dos ombros de uma multidão ensandecida pela música. Quase conseguia enxergar a cena da maneira que ela tomou forma na cabeça do jovem Fellini. O Grand Hotel, abandonado pela falta de hóspedes, parecia um set vazio.

A chuva começava a aumentar de intensidade e ressoava no casco dos veleiros e barcos do porto. Entrei em um pequeno bistrô e pedi um ristretto para ver se ajudava a me aquecer. Olhei pela vitrine esperando as gotas diminuirem. Não tinha pressa. Pela janela consegui ver algumas pessoas cruzando a milenar ponte de Tibério com guarda-chuvas e fantasias.

Em cada uma dessas cidadezinhas em que parei, por entre goles de vinho e capuccinos, me pegava às vezes observando os arredores, ouvindo conversas de outras mesas e sentindo, pouco a pouco, aquele ambiente se transformar em uma sala de estar dentro da minha própria casa. Os olhares de cineastas como Rosselini, Antonioni, Visconti, e, é claro, do próprio Fellini, ainda se manifestavam naquelas ruas estreitas, nas ruínas de antigos impérios e no sorriso tímido da garçonete do bistrô, com cabelos encaracolados e semblante concentrado em alguma página de palavras-cruzadas. Ali estava toda a Itália, mais real que a realidade; mais surreal do que a imaginação.

Era começo de noite quando atravessei para o outro lado da ponte de Tibério. As pedras úmidas refletiam as luzes da cidade. Um barulho podia ser ouvido ao longe, em um lugar onde focos de luz azul riscavam o céu. Era terça de Carnaval e duas crianças vestidas de bruxos jogavam confetes para cima. Caminhei até a Piazza central de Rimini. Lá, uma pequena multidão acompanhava as atrações previstas durante todo o dia. Um homem em perna de pau animava o público infantil, um mágico fazia truques e os jovens da cidade bebiam nos restaurantes. Fui até o balcão de um desses bares e pedi um spritz.

Quando a noite tomou conta do local, começou a música eletrônica do DJ e – perto da meia-noite – a praça e o salão de festas da cidade estava completamente lotado. Quase era possível encontrar caminhando por ali os fantasmas de Moraldo, Alberto e Fausto, personagens de I Vitelloni (1954). O carnaval ainda era o evento do ano na pequena cidade onde todos pareciam ser parentes, amigos, vizinhos, amantes; mesmo depois de meio século, o espírito provinciano recriado por Fellini permanecia, de certa forma, intacto.

Ainda sentia o amargor de algumas doses de spritz quando decidi seguir em direção ao hotel durante a madrugada. A festa ficava mais distante a cada passo, e o barulho das caixas de som diminuíram até sobrar apenas o som da correnteza nas águas do Marecchia. O cansaço era reconfortante. Sabia que estar ali, logo naquele dia, era um daqueles momentos da vida que não são facilmente repetidos; daqueles que entrelaçam a realidade com a ficção. Meu trem iria sair de Rimini na manhã do dia seguinte. Girei a chave do hotel com cuidado para não acordar o dono. Tranquei a porta e deixei a chave em cima do balcão, subindo as escadas em direção ao quarto. Abri as janelas deixando entrar o sopro morno da maresia do Adriático.

As sombras das árvores do pequeno bosque em frente ao hotel pareciam se mover ao som de alguma melodia silenciosa, lembrando fantoches em frente à claridade das fogueiras. Um dia eu havia assistido um teatro chinês que dançava ao ritmo dessas árvores. O vento soprava querendo sussurrar algo. As folhas no chão estavam secas, e quando passei por um ponto de ônibus, me senti observado por figuras estranhas. Prestei atenção em um velho com a pele maltratada pelo tempo que me olhava de forma ameaçadora. “Cosa stai facendo qui?”, me perguntou, em italiano. Apressei o passo e percebi que ele e outras duas sombras ainda olhavam para mim quando cruzei a esquina.  A próxima rua estava vazia. As casas estavam com luzes apagadas e uma silhueta caminhava lentamente, como se estivesse mancando. Eu queria saber como encontrar meu hotel.

Me aproximei e vi que a sombra era a de um homem corpulento, de capa e chapéu preto. Eu tentava chamar a atenção, mas não conseguia ouvir minha própria voz. A figura caminhava com certa dificuldade e olhava para mim de tempo em tempo, silenciosamente. O homem era Fellini, agora eu tinha certeza. Ele caminhou para fora da rua residencial, em direção à uma praça com um portal de entrada feito de pedras milenares. O vento começou a soprar com mais intensidade e o chacoalhar das árvores ressoava como uma sinfonia de grilos. A silhueta de Fellini seguiu por entre folhas que dançavam. Ele olhava para trás, como se me convidasse para seguí-lo.

Eu o segui.

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