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Month: janeiro 2012

Memórias da Trajetória Acadêmica

Na última sexta feira (não por acaso, de número 13) as corujas novamente levantaram voo, buscando observar o terreno enquanto as luzes do mundo se apagavam; enquanto todos os outros seres dormem, os olhos das corujas brilham na escuridão, atentos, vigilantes.

Eu lembro que ouvi essa história da coruja – como uma explicação dela ser a adotada como simbolo da Filosofia – do grande Vagner, em um de um dos muitos churrascos filosóficos que a gente realiza uma ou duas vezes por ano. Pensando agora, parece que faz pouco tempo, mas muita coisa mudou na pequena (e seleta) gangue filosófica desde de 2009 – Vagner virou quase-bispo em Roma, Fernandus de Crispim tem uma filha grande e falante, Adrianius é um mestre cervejeiro, Andrey Andrade é o mais novo motoqueiro selvagem, Grog virou vegano (sério!), Dentie ainda se mantém logicamente consistente e Scoponi, o ancião, vai começar a dar aulas em breve, embaixo de grandes pessegueiros, igual Sócrates. E eu… bom, eu tenho um blog.

Na última sexta-13 nós também brindamos in memoriam o grande Chicão, que atravessou precocemente o rio de Caronte com uma moeda em cada olho e, espero, subornou o barqueiro para também levar um cigarro em uma mão e um uísque na outra.

Esse texto é do passado. Mas Aquiles nunca alcançou a tartaruga.

Postado no Ceriblog em Fevereiro de 2009

“Nós não somos o que gostaríamos de ser.
Nós não somos o que ainda iremos ser.
Mas, graças a Deus,
Não somos mais quem nós éramos.”

O que escrever sobre minha trajetória acadêmica? Olhando para trás, até hoje eu lembro daquele momento em que vi meu nome pela primeira vez entre os aprovados no vestibular da UEL, e meus amigos me cumprimentavam e logo emendavam a seguinte pergunta: “Nossa, mas porque você escolheu Filosofia?”; naquela época eu não tinha a mínima idéia de como responder essa questão, e não pensei mais sobre isso – talvez nas próximas linhas, refletindo sobre o caminho percorrido nesses quatro anos, eu consiga achar uma resposta.

Assim como a maioria dos ingressantes no curso, eu tinha um conhecimento muito limitado da filosofia em si, e quase nenhum contato com textos filosóficos de verdade até entrar na UEL; esses com certeza foram motivos pelos quais eu me deparei com algo muito mais difícil do que eu imaginava a princípio. Sim, a Filosofia de verdade é extremamente cansativa, difícil e, em certos casos (como no estudo da lógica pura), simplesmente repugnante. Apesar disso, para a minha genuína surpresa, ela se mostrou igualmente compensadora – descobri, por experiência própria que a reflexão filosófica tem certas peculiaridades e que, depois de engendrar pelos seus obscuros caminhos, é impossível voltar a ser o mesmo de antes.

Talvez isso ocorra pelo fato de que, desde a primeira aula do primeiro ano, somos forçados a ter contato com inúmeros paradoxos, angústias existenciais e questionamentos intermináveis na busca de um sentido – somos levados a mergulhar para além do senso comum e nos perder na profundidade infinita de um oceano de perguntas sem resposta – compreendemos assim nossa própria insignificância perante um universo de máximas que fazem os mais sábios baixarem a cabeça humildemente, reconhecendo suas ínfimas limitações.

Por ser essencialmente subjetivo, o caminho filosófico é construído de maneira pessoal e particular, e o que aprendemos nele emerge como fruto de nossa singularidade; nosso diferencial em comparação com o mundo. O que posso dizer de concreto ao final de quatro anos é que a reflexão filosófica me obrigou a aprender a escrever, e escrever bem; que aprendi com Jean Jacques Rousseau a ler textos em francês e com Thomas Hobbes a ler textos em inglês; que me apoiei e levei como lição para minha vida os textos de alguns dos velhos e bons filósofos gregos; que filosofia não é auto-ajuda e nem religião (contrariando professores dogmáticos que encontrei pelo caminho), mas que ela de certa forma ajuda, e é tão ou mais intensa quanto qualquer religião; que ali, entre uma discussão filosófica e um jogo de futebol, fiz amigos para o resto da minha vida – Aristóteles que diga a importância de tais amizades.

Talvez a resposta para aqueles meus amigos que, vez ou outra, ainda me perguntam: “Nossa, mas porque você escolheu fazer Filosofia”, seja: “como você pôde não fazer filosofia?”.Eu sei que não é uma boa resposta , e que ela constitui um sofisma – mas talvez , ironicamente, eu também tenha alguma coisa de sofista, porque, hoje, me sinto submerso no rio de Heráclito.

Em busca de um Wookie

* trecho retirado do livro “As Melhores Entrevistas da Rolling Stone”, datada do dia 25 de agosto de 1977.

Rolling Stone – O seu primeiro filme Guerra nas Estrelas foi um imenso sucesso, uma ficção científica com pé na tradição épica e heróica.

George Lucas – Sempre foi assim que eu pensei, e é o tipo de ficção mais significante que eu me lembre. É uma pena que tudo isto tenha se transformado nessa coisa estilo ‘história em quadrinhos’, que foi a forma como nos acostumamos a assistir. Acho que a ficção científica ainda tem esta tendência de reagir contra essa imagem, tentando parecer muito séria, e foi algo que eu tentei derrubar com Guerra nas Estrelas. Buck Roger é tão válido quanto Arthur C. Clarke em sua própria maneira; digo, eles são o mesmo lado da moeda. Kubrick fez a coisa mais forte em cinema, se pensarmos no lado racional da coisa, e eu tentei fazer tudo da maneira mais irracional, mesmo porque acho que precisamos disso. De novo, nós vamos na espaçonave concebida na mente de Stanley, mas com certeza iremos carregando meus sabres de luz, e com um Wookie de co-piloto.

Agora você já fez sua aposta.

Então, minha aposta é a de tentar realizar tudo da maneira mais romântica. Meu Deus, espero que, se o filme conseguir alcançar alguma coisa, que seja aquele menino de 10 anos de idade, e que o transforme nessa pessoa louca pelo espaço sideral e desejosa de um pouco de imaginação e aventura para a sua vida. Não tanto uma influência para que ele seja no futuro uma espécie de Einstein ou Werner von Braun, mas apenas colocar na sua cabeça esse interesse pelo universo e pela exploração do espaço, fazendo ele sentir que isto é importante. Não por nenhuma razão racional, mas por uma paixão completamente irracional e romântica.

Eu ficaria muito feliz se algum dia, quando eu estiver com uns 93 anos, o homem colonizar Marte, e o líder astronauta da primeira colônia disser: “Eu só me transformei nisso porque estava esperando, desde pequeno, em encontrar um Wookie aqui em cima.”

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