Ceriblog

Creatio Continua

Month: setembro 2012

Coração de mãe

“A Primeira Coisa Bela” (Drama/Comédia. Itália. 122 min).  Dirigido por Paolo Virzi.  Na programação do Cine-Comtour/UEL até dia 28 de setembro.

 

Tendo início na pequena cidade italiana de Livorno no começo da década de 70, o primeiro plano revelado pelas lentes do diretor italiano Paolo Virzi é um pouco desconcertante. Em uma imagem saturada que lembra uma novela mexicana, em meio a um concurso de beleza o apresentador declara no microfone uma surpresa na programação: “Agora, vamos escolher a mamãe mais bonita da Região. Nossos assistentes estão selecionando algumas dessas mulheres para subirem ao palco”. Com uma beleza rara, Anna Nigiotti Michelluci (Micaella Ramazzotti) é escolhida e imediatamente premiada, ganhando uma canção especial e uma faixa. Animados, os seus dois filhos pequenos Valeria (Aurora Frasca) e Bruno (Giacomo) comemoram o sucesso da mãe, enquanto o seu marido Mario (Sergio Albelli) fica visivelmente irritado com o assédio.

Com uma elipse temporal de quase 40 anos, conhecemos um pedaço da tediosa vida do adulto Bruno (Valerio Mastandrea), um professor frustrado que suporta diariamente suas insatisfações através do consumo de bebidas e drogas. Flertando com o surreal, a personalidade do nosso protagonista é fascinante: cínico e mal-humorado ao extremo, em poucos minutos de projeção já percebemos que Bruno foge de qualquer tipo de relacionamento, projetando seu escapismo de uma forma estranhamente agradável – ridícula, mas com uma ironia fina e que acaba causando simpatia pelo pobre coitado. A vida medíocre do personagem sofre um choque quando sua irmã Valeria (Claudia Pandolfi) dá a notícia de que sua mãe (Stefania Sandrelli) foi diagnosticada com câncer terminal, e só lhe restam poucas semanas de vida. Depois de ter fugido de casa na adolescência, Bruno não fala com ninguém da sua familia há 20 anos, e nesse momento é que o filme caminha, lentamente, para o gênero de drama familiar.

Se a sinopse indica uma história simples – e que já foi contada diversas vezes – a excelência dos atores e os toques de Virzi conseguem renovar a velha fórmula com sucesso, principalmente através de uma combinação agridoce de diferentes universos, com pitadas equilibradas de drama e comédia. Primeiro, para revelar os segredos de uma narrativa que se arrasta durante décadas, as linhas temporais do filme se comprimem e se entrelaçam inteligentemente, indo e vindo em três fases distintas que acabam culminando na crise familiar e na separação de seus integrantes.

Sofrendo por ser uma mulher de personalidade e sexualidade intensa dentro de uma sociedade especialmente machista, os problemas da jovem e bela Anna começam exatamente após seu destaque no concurso de beleza, quando Mario sofre uma crise de ciúmes e a expulsa de casa junto com os filhos. Revoltada por não encontrar abrigo na casa da própria irmã, ela é obrigada a ficar hospedada em um albergue. Lá, ela conhece um jornalista que a apresenta para seu círculo de amigos, que trabalham com cinema; fascinada pela possibilidade de ser uma atriz e trabalhar com nomes como Marcello Mastroianni, ela começa a fazer parte de um outro círculo social, escolhendo um caminho que – como já é esperado – guarda grandes alegrias e decepções profundas.

Lançado em 2010, não é apenas pelo fato de ter alcançado um grande sucesso de público que o filme foi escolhido para representar a Itália no Oscar do ano passado. Sutilmente, a influência de mestres como Fellini e Rosellini começam a ganhar forma em algumas pinceladas especiais do filme; principalmente através de cenas que reúnem conversas secundárias – mas não menos importantes – e que sublinham com humor e delicadeza a fama da personagem de Anna na pequena cidade (como fofocas entre as cozinheiras de uma festa ou conversas nos vestiários dos colegas de Bruno). A história nunca é morna e, mesmo sendo pontuada por picos de dramalhão e de histeria – de maneira italianíssima – é um prazer descobrir que todos os personagens são tratados com carinho, representados de maneira multi-dimensional. Depois de certo ponto no filme, o sentimento que temos é de como se conhecêssemos aqueles cidadãos de Livorno e, por esta razão, compartilhamos e entendemos suas emoções e seus conflitos.

Transitando entre um leque de grande diversidade emocional, o filme se sustenta mesmo na ótima interpretação de todos os elementos que compõe o seu elenco principal e secundário (as crianças, o adulto Bruno e a belíssima Anna são destaques) e que conseguem amarrar a dinâmica do filme, exibindo os meandros de uma relação familiar que, mesmo bastante conturbada, é também repleta de carinho, de pequenos gestos de amor e de palavras não ditas.

Em uma das cenas mais emocionantes do longa, enquanto o adulto Bruno dança uma valsa lenta com sua mãe ele pergunta, com uma sinceridade arrebatadora: “Mamãe, porque sou tão infeliz?”. Ela não responde, mas esta é uma questão que ressoa ao fundo durante toda a narrativa do longa, sublinhada especialmente pela teia de memórias do próprio personagem. Incompletos individualmente, a união de uma família tão disfuncional também surge como metáfora perfeita para a complexidade de todas as relações humanas: sem culpados ou inocentes, exercemos papéis distintos nessa ópera trágicômica que apelidamos de vida. Até o fechar das cortinas.

Perdido no Abismo

“Fausto” (Drama. Rússia/Alemanha. 140 min).  Dirigido por Aleksandr Sokurov.  Na programação do Cine-Comtour/UEL até dia 21 de setembro.

 

“Eu estudei filosofia

A lei e a medicina

E, para o meu pesar, também teologia

Estudei todas com um zelo ardente

E ainda estou aqui, um tolo desgraçado

Não mais sábio do que era antes.” – Fausto, 31

 

Obcecado por encontrar respostas para suas perguntas, o pobre Dr. Heinrich Faust (Johannes Zeiler) é revelado pela primeira vez nas lentes do cineasta russo Alexandr Sokurov dissecando, dentro de seu laboratório sujo, as entranhas de mais um cadáver anônimo. “Onde está a alma?”, ele pergunta, mais uma vez, para os ouvidos vazios de seu simplório ajudante Wagner (Georg Friedrich). “Não consigo encontrar a alma. Acabou. É só uma fina pele”, conclui o cientista, decepcionado. Os órgãos do morto se espalham pelo chão, e só nos resta a podridão fétida da existência.

Em cinema, “adaptação” é sinônimo para reinvenção. Transpor um bom livro para as telas exige que os seus melhores fragmentos de textos sejam traduzidos em imagens, e que elas, por si mesmas, sustentem o espaço das reflexões racionais, e façam transbordar a subjetividade dos personagens principalmente através de gestos, silêncios e olhares que podem ser capturados pela câmera. “Mostre, não conte” é uma das máximas cinematográficas mais importantes que existem –  um diálogo que funciona nas páginas provavelmente não funciona em um monólogo de seis minutos na tela grande – e, justamente por falharem em compreender esse princípio, alguns clássicos da literatura foram transformados em filmes medíocres. Por outro lado, livros medíocres  já renderam um ótimo material cinematográfico. Cinema não é literatura, e vice-versa.

Obra-prima do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, “Fausto” figura – ao lado de exemplos  como “Odisséia”, de Homero e “Ulysses”, de James Joyce – no panteão das obras ditas ‘inadaptáveis’. Mas talvez esta dificuldade é que tenha atraído desde o princípio o diretor russo, que escolheu adaptar esta obra de ficção para fechar sua série cinematográfica sobre a natureza humana (projeto pelo qual completou os filmes “Moloch”, de Hitler. “Taurus”, de Lenin e “O Sol”, do Imperador Hirohito). Antes de Sakurov, a única tentativa de adaptar o livro de Goethe foi em 1926, no magnífico “Fausto” do diretor alemão F.W. Murnau, mudo e em preto-e-branco.

A primeira impressão do trabalho de Sokurov é excepcional. Perdido dentro de uma atmosfera visual sufocante e miserável, o Dr. Fausto busca pelo sentido da vida em meio ao lixo humano, mendigos esfomeados e depravação moral causada pela guerra: Fausto não busca poder através do conhecimento, mas sim acesso à alguma coisa transcendente e eterna, um vislumbre de conhecimento negado para a mente que trabalha de maneira puramente racional.

Mas, depois deste impacto inicial, começamos a perceber que – além do cheio de carniça – alguma coisa estranha paira no ar. Fausto é preguiçoso e degenerado, retratado como apenas mais um produto da sociedade podre que o cerca. Para piorar, o sagaz demônio Mephistopholes virou Marcelo (Anton Adasinsky), um decrépito dono de uma casa de penhor que é ‘invocado’ para a existência sem um ritual místico. É nessa inversão de valores que a genialidade de Goethe é substituída pela pena incômoda das convicções do próprio Sokurov.

Dentro de uma jornada que se arrasta como um pesadelo – e que tem cenas impactantes dentro de tavernas, florestas e igrejas – é uma pena que este terrível espetáculo visual não faça jus à narrativa fraca que, mesmo dentro de um ambiente onírico (e auxiliada por boas perfomances de ambos os protagonistas) perde significado a cada passo. A maior falha do filme se resume no papel exercido pela bela Margareth (Isolda Dychauk): se, no livro, ela era o motivo de uma paixão desvairada que levou Fausto a firmar um contrato com forças sobrenaturais, na versão cinematográfica ela é apenas um objeto de desejo que, fazendo parte de um perverso amálgama de sexualidade e pedofilia, faz o cientista vender sua alma apenas em troca de prazer carnal.

Não nos identificamos com os dilemas de Fausto. Não empatizamos com o demônio Marcelo. Não sentimos nada além de sexualidade por parte de Margareth. Assim, a obra literária que inspirou mentes brilhantes como as de Nietzsche e de Schopenhauer ficou esvaziada em seu sentido filosófico. Para remendar isto, Sokurov tenta nutrir sua incapacidade narrativa acrescentando um caldeirão de simbologias e metáforas que invocam a obra “Assim Falava Zaratustra”: conferindo para o protagonista qualidades de Übermensch e apontando para o Eterno retorno nietzscheano. Não é o bastante.

Mesmo com algumas linhas interessantes e um aspecto visual fantástico, “Fausto” falha em transmitir o sentido essencial na obra de Goethe, e só pode ser indicado para o público que já é ‘iniciado’ na Filosofia e que conhece o texto original. Para o resto, é melhor gastar tempo na biblioteca do que no cinema.

Distorcendo Wittgenstein: o que não se pode filmar, deve-se evitar.

“Eu sou Jerusalém”

Eu sou Jerusalém.

Sou os olhos secos do cadáver que, enquanto apodrece, observa. Estou balançando nas muralhas, enquanto os Cruzados atravessam os portões construídos com pedra e sangue.

Sou o corvo. Sou o latejar dos dentes. O grito de ódio preso na garganta dos injustiçados.

Sou o último.

Eu sou Londres.

Sou os olhos fechados, e as palavras de sabedoria de um mestre hindu. O vento que rasga o silêncio do Himalaia. O leve balançar dos sinos, mudos, que se erguem acima da cidade bombardeada, infestada pelo cheiro de carniça queimada.

Eu sou Los Angeles

Sou o desejo, o sexo, a cobiça. Sou o prazer disfarçado pela dor. O sorriso amarelo. O jogar de dados. As rodas do moinho. Sou as lágrimas que acompanham o orgasmo. Sou o tempo que não veio. O sonho não realizado.

Sou de Eléia e de Éfeso. Sou a flecha, tensionada, pronta para ser disparada no peito do inimigo. Sou a alucinação desesperada. O pesadelo que nunca acaba. Sou o pressentimento que te persegue nas vielas sujas, em uma madrugada sem estrelas.

O torpor alcóolico. A dança. O sangue. O sacrifício. A fobia irracional. A paixão desvairada. O beijo molhado. O frenesi psicótico. A garganta degolada.

Eu sou o que não é.

Sou a areia que cai na ampulheta. O ruído uníssono. O despertar das multidões. A guilhotina rasgando a carne. A mão esmagando o crânio.

O fogo que consome. O coração que falha. A verdade esquecida.

Tremam, vermes.

A minha hora chegou.

A Lei do Conflito

Retirado do livro “Story – Substance, Structure, Style”, de Robert McKee. Traduzido e adaptado por Ceriblog.

Em qualquer narrativa, a Lei do Conflito é mais do que um princípio estético; ela é a alma da história. Isto porque histórias são metáforas da vida, e estar vivo consiste em estar submerso dentro de um conflito perpétuo. Como Jean-Paul Sartre expressou, a essência da realidade é a escassez, uma ‘falta’ universal e eterna, que sempre nos persegue. Não existe o bastante de nada em nosso mundo. Não existe comida o suficiente, amor o suficiente, justiça o suficiente, e não temos tempo o bastante. O tempo, como Heidegger bem observou, é um dos problemas básicos da existência; nós vivemos dentro de uma sombra que diminui constantemente e, se um dia quisermos alcançar qualquer satisfação dentro de nossa breve e efêmera existência – algo que não nos deixe morrer com a sensação de termos apenas desperdiçado tempo – nós precisamos ir em direção ao conflito, e lutar contra as forças da escassez, que negam a realização completa de nossos desejos.

Escritores que não conseguem enxergar a verdade dentro dessa existência transitória – que foram iludidos pelos confortos do mundo moderno e que acreditam que a vida é fácil assim que você aprende as regras do jogo – esses escritores criam conflitos com inflexões falsas. Os seus roteiros falham, por uma de duas razões: seja pelo desenvolvimento de um conflito absurdo e violento (especialmente através de efeitos especiais e explosões megalomaníacas) ou pela completa falta de sentimentos honestos no papel (retratos tediosos da vida cotidiana, que evitam um conflito maior porque se fundamentam em uma existência ‘a la Pollyanna’, onde tudo é resolvido só com um pouquinho de esforço).

(…) Hoje, a luta pela sobrevivência física foi eliminada pelas civilizações modernas e nações industrializadas. Essa segurança no mundo externo nos confere tempo para refletirmos sobre o nosso mundo interno. Agora, que estamos embaixo de um teto,  vestidos, alimentados e medicados, nós podemos suspirar fundo e descobrir o quão incompletos ainda somos como seres humanos. Nós queremos mais do que conforto físico. Nós buscamos, acima de todas as coisas, a felicidade; e dessa maneira que começam as nossas batalhas internas, contra nossos próprios demônios e sentimentos. Mas se você, como um escritor, não tem interesse por conflitos do corpo, da alma e das emoções, ainda assim pode encontrar muito material na miséria e nos conflitos sociais que são rotina em países subdesenvolvidos, onde a maioria da população sofre assolada por doenças e pela violência sem fim.

Mas ainda, se a profundidade e extensão dos conflitos externos e internos não são suficientes para te emocionar, pense nisso: na morte. A morte é como um trem desenfreado, que se move rapidamente em nossa direção, minuto após minuto, segundo após segundo, e que pode chegar entre hoje e amanhã. Se quisermos alcançar qualquer tipo de satisfação na vida, temos que fazer isto antes deste trem chegar até a nossa estação.

Um artista que pretende criar obras que irão durar por décadas ou séculos entende que a vida não se faz de ações minimalistas ou exageradas: a existência não é uma questão simples, mas também não se resume através de conspirações enormes que roubam artefatos nucleares e querem destruir o planeta. As questões mais importantes da vida passam pela busca do amor e do auto-reconhecimento, de trazer serenidade para o caos interno, de buscar algum significado dentro das iniquidades sociais em nossa volta ou de correr contra nosso tempo, que está sempre acabando. A vida é conflito. Esta é a natureza de nossa existência. Cabe ao escritor decidir onde, quando e porque criar e orquestrar uma destas batalhas.

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