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Month: agosto 2015

Arena

Retirado do discurso de Martin Scorsese em Tisch. Traduzido por Ceriblogmartin-scorsese-with-one-of-the-guns-used-by-robert-de-niro-on-the-set-of-taxi-driver-photo-steve-shapiro-1976

Theodore Roosevelt disse em 1910, em outra primavera, em outra universidade:

“Não é o crítico que conta. Não é quem aponta o dedo enquanto o homem forte desfalece. Ou quem diz onde o construtor das coisas poderia ter feito um trabalho melhor.

O crédito pertence ao homem que está na Arena. Aquele que tem a face manchada com poeira, suor e sangue. Aquele que luta corajosamente, que erra, que cai uma vez após a outra pois não existe real esforço sem erro e despreparo. O crédito pertence para quem verdadeiramente luta para realizar algo. Para aquele que conhece o grande entusiasmo; a grande devoção. Que gasta a si mesmo por uma causa valiosa. Aquele que conhece, no final, o sabor do triunfo das grandes conquistas. Ou aquele que, se fracassar, pelo menos fracassa ousando grandiosamente.

O lugar desses homens nunca será ao lado daquelas almas frias e tímidas que nunca conheceram a verdadeira vitória ou o sabor da derrota.”

Todo passo é o primeiro passo. Toda pincelada é um teste. Toda cena é uma lição. Todo take é uma escola. E o aprendizado continua.

Impressões do Leste

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 Texto publicado na coluna do mês de agosto do blog inCast (www.incast.com.br)

“Cada filme é um campo de batalhas” é parte de uma das frases mais famosas do cineasta americano Samuel Fuller, reconhecido como um importante expoente no cinema independente americano das décadas de 50 e 60. Essa também era a frase que martelava na minha cabeça naquela madrugada quente de dezembro, enquanto tentava espantar o sono administrando doses cavalares de cafeína e ouvindo a batida das guitarras do Metallica nos fones de ouvido. Era o posfácio de uma noite mal dormida, ou nem isso; três horas de olhos fechados e já tinha que estar em pé, planilhas e claquete na mão, pronto para mais um dia de set. Era o terceiro dia de filmagem de Leste Oeste – longa dirigido heroicamente pelo amigo Rodrigo Grota e que havia sido incubado, remodelado, reescrito e readaptado dezenas de vezes durante três anos, até o primeiro ’Ação’.

Como na maioria dos filmes independentes nosso exército era pequeno, mas eficiente; eu era primeiro Assistente de Direção e repassava todo começo de manhã a ordem das cenas com o soldado Mussato (também AD). Nossa tabela de ‘ataques’ iria definir o ritmo do set. Em quem atirar primeiro? Enquanto isso a equipe de Arte já estava a postos, construindo mundos com baldes de cola e tinta nas paredes antes do sol nascer. O Figurino corria com cabides na mão. O Som batia palmas para verificar o eco. A Fotografia preparava suas lentes. No QG, o General-executivo Guilherme Peraro destrinchava anotações no excel para controlar o orçamento de toda operação. Era o começo de um longo dia de lutas mas nós éramos boinas verdes, e adorávamos o cheiro de napalm – e café com bolachas – pela manhã. 

No caso do Leste Oeste, tivemos a sorte imensa de escalar atores talentosos – Felipe Kannenberg e Simone Illiescu assumiram os papéis principais – e de ter uma equipe unida, que compartilhava do mesmo sonho e que se envolvia verdadeiramente, emocionalmente, em todas as etapas do processo. Pelo bem e pelo mal, este é ‘nosso’ filme, rodado com pouco recurso em uma cidade fora do eixo e com talentos que experimentavam pela primeira vez o sabor da odisséia que é produzir um longa-metragem.

Não estamos sozinhos. Segundo dados da Ancine mais de uma centena de filmes de longa-metragem são produzidos no Brasil por ano, e a imensa maioria deles com orçamento bastante limitado. A estratégia da trincheira se repete: fotógrafos guerrilheiros em busca daquele horizonte alaranjado nas primeiras horas da manhã, diretores correndo contra o deadline tentando traduzir o sentimento do texto em cenas, produtores encontrando locações que já existiam para serem transformadas em sets improvisados. Sim, é preciso ter uma vontade imensa para rodar um filme. É preciso motivar seu exército com discursos inflamados e promessas de dias melhores. “Apesar de tudo, não vamos nos render”. Nós somos Napoleão em Waterloo. Nós somos Leônidas em Termópilas. Recuar, jamais.   

Hoje estamos envolvidos na pós produção, aprendendo que a vida do filme está longe de terminar com o último “corta!”. O terceiro ato da saga do cinema independente é fazer nascer por fórceps a história na tela grande; no mercado brasileiro faltam redes de distribuição para o número de filmes que são realizados. Quantos destes projetos realmente estreiam nos cinemas? Quantos entram em festivais importantes? Poucos. Entre mortos e feridos, entre um Transformers e um Homem-Aranha, são ínfimos os expoentes de baixo orçamento que têm oportunidade de competir; a maioria dos filmes pequenos jaz no esquecimento, natimortos em um HD ou em uma lata de película. E filmes, se não forem vistos, não cumprem sua missão. Um filme ‘na gaveta’ é um filme que não existe. 

Qualquer que seja o final da aventura que foi o Leste Oeste, o sentimento que fica é que batalhar vale a pena. Todo bom guerreiro carrega cicatrizes. Todo bom soldado deixa sua arma limpa e carregada, esperando ansiosamente a próxima oportunidade de lutar. Pois “cada filme é um campo de batalhas”, como declarava Samuel Fuller. “Amor. Ódio. Ação. Violência. Morte. Em uma palavra… emoção”.

Produzido pela Kinopus Audiovisual, o longa Leste Oeste foi gravado na cidade de Londrina nos meses de novembro/dezembro de 2014.  Está atualmente em pós-produção e com lançamento previsto em circuitos de Festivais em 2016. 

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