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Month: March 2019

O Passageiro

Trecho do texto de Michelangelo Antonioni sobre seu filme “O Passageiro” (1974). Traduzido por Ceriblog.

A história de ‘O Passageiro’ é, talvez, minha própria história como artista, como um diretor. Eu não sei se vou resistir: não estou falando sobre a tentação de mudar de identidade, porque todos têm isso. Estou falando sobre destino, e do fato de que cada um de nós carrega seu próprio destino em si mesmo. Eu não sei se vou resistir à todas essas ações que, no final da vida, se juntam para formar o destino de um homem. Alguns resistem, outros não.

Talvez seja um erro mudar de identidade: você abre mão da vida e morre. Tudo depende do que você vai fazer após assumir sua nova identidade. É um pressuposto que provavelmente vai fazer a pessoa entrar em conflito com a própria existência. Um jornalista sempre vê a realidade com uma certa consistência, uma coerência ambígua de seu próprio ponto de vista, que parece objetiva para ele, e só para ele. (…) Afinal, tudo que faço é absorvido em uma espécie de colisão entre a realidade e eu mesmo. Nem lucidez ou claridade estão entre minhas qualidades. Eu nunca vou encontrar nada que seja equivalente à minha própria imaginação.

O filme inteiro é ambíguo, mas eu acredito que é isto que lhe dá um senso concreto. O Ser, diz Heidegger, é o Ser-No-Mundo (dasein). Quando o personagem de David sente que este é o fim (mas provavelmente nem ele tenha certeza), ele já não está no mundo. O mundo está fora da janela. É uma reportagem de sua própria morte.

Poucas pessoas entenderam que, por detrás do personagem de Jack Nicholson, estava eu mesmo. Como ele, eu quis por muitas vezes mudar minha identidade, minha vida, meus encontros, esquecer dos meus amores e dos meus deveres, das minhas presenças e ausências para tomar a identidade de um estranho. Eu também quis começar uma nova aventura.

The Passenger

Excerpt from Michelangelo Antonioni about his movie ‘The Passenger’ (1974)

The story of ‘The Passenger’, perhaps, looks like my story as an artist, as a director. I do not know if I will succumb: I am not talking about the temptation to change identity, because everyone has that. I’m talking about destiny, because each one of us carries his own destiny within him. I do not know if I will succumb to all those actions that, at the end of a life, come together to form one’s destiny. Some succumb, others does not.

Perhaps it’s a mistake to change one’s identity: you succumb to life and die. It depends on what you do once you have taken another identity. It is a presumption that will most likely bring a person into conflict with life itself. A journalist sees reality with a certain consistency, the ambiguous consistency of his point of view, which seems objective to him and to him alone. (…) After all, everything I do is absorbed in a sort of collision between reality and me. Neither lucidity or clarity can be counted among my qualities. I will never find the exact equivalent of my imagination.

The whole film is ambiguous, but I think this ambiguity is what gives it a sense of the concrete. Being, says Heidegger, is being-in-the-world (dasein). When David feels that this is the end (but even he is probably not so sure), he is no longer in the world. The world is outside the window. It is reportage on his own death.

Few people understood that behind the character of Jack Nicholson there was myself. Like him I have often wished I could change my identity, life, and encounters, forgetting my love and my duties, presences and absences to take on the identity of a stranger, to begin another adventure.

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