Ceriblog

Creatio Continua

Page 2 of 15

Loucura e Solidão

Texto publicado no blog inCast na coluna de novembro/2015

Captura de Tela 2015-12-01 às 12.57.54

Faz algum tempo que afirmo que os melhores roteiristas da atualidade preferem trabalhar para séries de TV do que para o Cinema; isso acontece, em parte, por causa da criação do papel de Showrunner nas emissoras (geralmente o escritor que é o ‘dono’ da ideia é que monta sua própria equipe para desenvolver e produzir um seriado, com bastante liberdade criativa). Um livro fundamental para entender o movimento intitulado de Era de Ouro da TV Americana é o Homens Difíceis, escrito pelo jornalista Brett Martin e que revela os bastidores de produções marcantes como Familia Soprano (HBO 1999/2007), The Wire (HBO 2002/2008), Breaking Bad (AMC 2008/2013) e Mad Men (AMC 2007/2015). Hoje as séries e canais VOD, como Netflix e Hulu, são onde estão a verdadeira experimentação cinematográfica e conteúdo adulto – isso é confirmado pela migração de grandes nomes como Scorsese, Spielberg e Woody Allen para essa nova maneira de storytelling. O fato é que a maioria do que é hoje produzido e distribuído em grande escala para o Cinema tem, infelizmente, o valor artístico de uma montanha-russa da Disney. Na primeira (e última) vez que entrei em uma sessão 4XD, saí molhado com esguichos de água e tonto pelo movimento da cadeira vibratória. O filme é o que menos importa.

Não tenho intenção de me aprofundar no assunto da indústria do Cinema ou no papel dos Showrunners – quem sabe em um próximo post. Comecei a escrever um pouco distraído, ouvindo Chet Baker e pensando em Mad Men; uma das séries que tem ‘permanecido’ comigo depois do fim. Volta e meia me surpreendo pensando em seus cenários enfumaçados e diálogos temperados com existencialismo. Estive recentemente em Nova York e caminhei sob os passos fictícios de Don Draper, e mais de uma vez fiquei em um balcão tomando um Old Fashion pensando no final da terceira temporada da série – que encerra com a pergunta de uma loira exuberante para um protagonista desiludido com o amor: “Você está sozinho?”.

automat

O pintor nova-iorquino Edward Hopper dizia que se ele pudesse expressar o que sentia em palavras, não existiriam motivos para pintar. O que transforma Mad Men em uma série especialmente boa é exatamente o que não é dito, o que fica implícito dentro da orgia americana de consumo, álcool e drogas. O criador da série Matthew Weiner escreve pelas entrelinhas mais do que uma história sobre a publicidade e a revolução cultural; Don Draper personifica a solidão esmagadora do homem moderno, a individualidade sepulcral das grandes metrópoles, o amor inventado para vender lingeries e a busca da felicidade como artifício para consumir Coca-Cola. É de um cinismo brilhante.

nighthawks

Hemingway costumava dizer que para escrever um bom romance era preciso pensar nele como a ponta de um iceberg. Apenas o autor saberia o que está escondido nas profundezas de cada personagem, mas era absolutamente necessário que tudo estivesse lá. Uma boa história deve ser mais real do que a própria realidade. Uma das coisas que mais fascinam em Mad Men é a quantidade de camadas submersas em sua narrativa. Em um capítulo da primeira temporada Draper cita La Notte, obra-prima de Michelangelo Antonioni, como um de seus filmes favoritos – não por acaso, no mesmo episódio em que ele escapa com uma de suas amantes para uma casa de praia. Os nomes dos episódios e os enquadramentos de câmera também indicam o arcabouço referencial sobre o qual a série se sustenta; A Tale of Two Cities – romance de Charles Dickens que também é nome de um dos episódios – tem passagens brilhantes sobre a solidão humana em grandes metrópoles, e as pinturas de Edward Hopper certamente serviram como inspiração para a montagem dos takes durante a série (recortei parte do texto e fiz uma montagem para exemplificar o que estou falando. As referências estão abaixo).  

Enfim, uma grande narrativa possui infinitas camadas. O sabor inebriante de Mad Men vai permanecer comigo por mais algum tempo, reaparecendo periodicamente em um jazz dos anos 50 ou entre uma dose e outra de uísque misturado com laranja e angostura.

Office-in-a-Small-City-by-Edward-Hopper


Trecho de ‘A Tale of Two Cities’, de Charles Dickens. 

“Um fato extraordinário a merecer reflexão é o de que cada ser humano se constitui num profundo e indecifrável enigma para todos os demais. Sempre que entro numa grande cidade à noite, considero com solene gravidade que todas aquelas casas fechadas e escuras encerram seu próprio segredo, que cada aposento em cada uma delas oculta um mistério, que cada coração pulsando nessas centenas de milhares de peitos esconde algum segredo para o coração que está ao seu lado!

Alguma coisa de horror, até mesmo da Morte, tem a ver com esse fato. Não mais posso virar as folhas daquele querido livro que amei e em vão pretendi ler. Não mais posso contemplar as profundezas dessas águas insondáveis nas quais, à luz fugaz dos relâmpagos, vislumbrava tesouros enterrados e outras preciosidades submersas.

Meu amigo está morto, meu vizinho está morto, meu amor, a eleita de minha alma, está morta; e essa é a inexorável consolidação e perpetuação do segredo que sempre existiu nessa individualidade, e que eu próprio também carregarei comigo até o fim da minha vida. Dormirá, nos cemitérios desta cidade por onde agora passo, alguém mais inescrutável do que é para mim qualquer de seus habitantes vivos e ativos, ou do que sou eu próprio para eles


Montagem dos takes finais de Mad Men

Obras de Edward Hopper
Automat (1929) / Nighthawks (1942) / Office in a Small City (1953)

DSCN0233

“And death shall have no dominion.
Dead man naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan’t crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion. ”

Dylan Thomas 

Via Margutta, 110

DSCN1124

“Qual seu filme favorito?”

Essa é uma das perguntas que mais escuto de velhos amigos e novos conhecidos desde que comecei a trabalhar com cinema (depois do espanto inicial de “Cinema? No Brasil? Sério?” passar). Poucos entendem que é uma pergunta impossível: como escolher entre a Sicília de Corleone, a Espanha de Antonioni, a Manhattan em preto e branco ou o futuro de McFly? Dizer qual é meu filme favorito seria como escolher o dia mais importante da minha vida, e sou ruim com datas; minha memória é meio que um emaranhado de momentos que podem ter sido comprimidos em dias, semanas, meses, sonhos. Ao invés de apontar no calendário, prefiro carregar tudo comigo. Momentos são como chaveirinhos de lembrança, o que é especial eu deixo pendurado na bagagem até quebrar ou desaparecer.

Um momento desses aconteceu em um outubro de anos atrás, enquanto a chuva inundava as canaletas da estreita Via Margutta em Roma. Eu estava lá sozinho, encharcado, estômago vazio e levemente embriagado com Nero d’Avola. Era minha homenagem silenciosa para um dos caras que mudaram a minha vida. O maestro Federico Fellini morou ali com Giulietta Masina durante boa parte de sua carreira, criando universos. Hoje só resta uma pequena placa, maltratada pelo tempo. Um ditado popular romano diz que para o viajante conhecer verdadeiramente a Cidade Eterna é preciso “tomar café da manhã com o Papa e jantar com Fellini”. A alma da Itália é o sagrado e o profano caminhando lado a lado, de mãos dadas.

Lembro do cinema italiano como lembro das esquinas de Roma. Um lugar onde cada rosto me parece tão familiar, onde em cada piazza encontro uma tia, um sobrinho ou um gelato. A viagem de Rosselini é também minha viagem, e passeando pelas entranhas da Itália eu me redescobri. É um paradoxo, eu sei, mas para mim uma tarefa mais fácil do que indicar um filme é indicar um frame. Ele aconteceu quando assisti La Dolce Vita pela primeira vez: até hoje me emociono com o olhar de Valeria Ciangottini pouco antes das luzes se apagarem. É um convite para a aventura. É uma perda irreparável da inocência. Foi nesse segundo que decidi ser um cineasta.

O tempo corre e a chuva continua inundando a viela Margutta, batizada desde o Império Romano com o nome de “Gota do Mar”. Os anos passam e os momentos ficam. E os filmes nos assombram, nos maltratam, nos iluminam.

O fim é certo, mas a vida é doce.

Captura de Tela 2015-10-20 às 12.02.28

Startupar é Preciso

000008

Tudo começou em uma madrugada de um outro setembro, enquanto rabiscávamos quadros-brancos tentando preencher folhas de papel com linhas de programação php e smiles rabiscados com canetinhas coloridas. A ideia tinha que estar ali, em algum lugar entre os pedaços de pizza fria ou na cerveja esquecida pela metade em cima da mesa de centro. O som que tocava era de alguma música do Sgt. Peppers Lonely Heart, e quem observasse de longe aquelas três figuras pensativas no meio de uma sala enfumaçada pelo tabaco amadeirado da Virginia demoraria para entender o que estava nascendo naquele momento. “E se a gente focasse nesse botão vermelho, ficaria mais fácil?”, sugeriu Martim Fernandes, engenheiro, amigo de longa data e um dos idealizadores daqueles encontros semanais. “Óbvio”, respondeu laconicamente Cao Oliver - o mago programador que faria isto virar realidade. Alguma coisa estalou naquele momento. Assim, com uma mudança repentina de atitude, saímos de um labirinto mental para encontrarmos a primeira obra da startup Yuniverse: assim nascia o ScriPitch.

Nesse mês em que nossa plataforma para roteiristas independentes completa dois anos, não poderia deixar de escrever um pouco mais sobre as motivações que levaram três cabeças a se juntarem para criarem algo novo. A ideia é simples: o ScriPitch pretende democratizar o acesso à boas ideias e servir como uma plataforma onde roteiristas independentes possam compartilhar seus filmes, documentários ou séries de TV para serem adquiridos por produtoras de pequeno, médio ou grande porte. Toda boa ideia merece uma chance, e nossa ferramenta quer proporcionar exatamente isto.

Nos bastidores, o clima de ‘ideia de garagem’ sempre foi algo que buscamos implementar no cotidiano de trabalho do ScriPitch. Para valer a pena navegar pelos oceanos infinitos das ideias - sem nenhum mapa do tesouro ou garantia de terra à vista - é preciso trabalhar com prazer, fortalecendo laços de amizade dentro de uma perspectiva que assuma as bandeiras de “liberdade e responsabilidade” de cada um da equipe. É com imensa satisfação que o ScriPitch conseguiu encontrar um público fiel e parceiros legais, que assumem os mesmos compromissos; estamos muito animados com a cooperação fantástica que estabelecemos com a inCast, que sabemos que é uma equipe comprometida com os mesmos ideais de colaboração, visando o crescimento do mercado audiovisual nacional.

Aliás, co-working e co-thinking são dois termos que abraçamos com entusiasmo nos últimos meses. A última novidade do ScriPitch é que também fazemos parte do grupo Se7upers - primeiro conglomerado de startups no Brasil que trabalha com a troca livre de informações, seguindo um protocolo completamente colaborativo e aberto. Esperamos conseguir manter essas novas descobertas, abrindo caminhos de diferentes maneiras, pensando “fora da caixa” e seguindo adiante com o mesmo espírito do começo, com ideias rabiscadas pelas paredes.

Porque Startupar é preciso…
E se divertir também é preciso.

Roteiro para Séries de TV – entrevista por Rodrigo Grota

Mad Men -

Escrito e publicado por Rodrigo Grota em sua coluna no Portal Bonde (acesse aqui)

Todos sabem que o meu terreno é o cinema. Assisti a poucas séries de TV, e confesso que vi na íntegra apenas uma – True Detective. No entanto, com a crescente qualidade dos roteiros para algumas séries, é cada vez mais comum encontrar textos sobre uma suposta dualidade entre o cinema e a TV. Estaria hoje a TV americana mais madura, em termos estéticos e de dramaturgia, que a produção de Hollywood? 

Para compreender um pouco mais essa questão, conversei com o jornalista e cineasta Rafael Ceribelli. Especialista em séries de TV, e também um amante do Cinema, ele é o responsável pela plataforma internacional de roteiros Scripitch, criada há dois anos e que desde então abriga roteiros de vários países. Trabalhamos juntos pela primeira vez em 2013, quando ele foi corroteirista do curta Parque Guanabara, dirigido por Guilherme Peraro em uma parceria com a RPC (retransmissora da TV Globo no Paraná).Há 3 anos Ceribelli tem sido um constante colaborador nos nossos projetos na Kinopus. Foi assistente de direção no longa-metragem Leste Oeste (previsto para estrear em 2016), no curta Mister H (uma coprodução que realizamos com a produtora francesa Senso Films) e também no documentário O Nadador – A História de Tetsuo Okamoto (produzido para os canais ESPN).

Amante de Fellini e Welles, leitor de Hemingway e Conan Doyle, Ceribelli também escreve. Seu conto “A Caça” será rodado pela Kinopus em breve. E já tem duas séries prontas para TV.

Entre os dias 22 e 24 de setembro, ele vai ministrar uma Oficina de Roteiro para Séries de TV no Centro Cultural Sesi, em Londrina. Esse é o primeiro curso do gênero ministrado na cidade. Asinscrições vão até a próxima semana e podem ser feitas nesse link. Restam poucas vagas.

Para iniciar essa aproximação desta Coluna ao universo de Séries de TV, enviei três perguntas ao amigo. Confira, portanto, as respostas, que são também uma espécie de aperitivo do que será o curso a ser realizado dentro de duas semanas.


 

Quais são as 3 séries de TV que mais o fascinaram? Comente um aspecto delas que o seduziu.

Rafael Ceribelli: É uma pergunta bem difícil principalmente porque a quantidade de séries de qualidade lançadas hoje em dia é surpreendente, e existem várias muito bem escritas. Para mim, a série mais marcante que já assisti ainda é The Sopranos (1999/2007), mas ela é seguida de perto por The Wire(2002/2008), Rome (2005/2007) e Mad Men (2007/2015).

Elas se destacam por motivos diferentes: The Sopranos é mais do que uma releitura da Cosa Nostra americana. A série é uma jornada pessoal do chefe de uma família mafiosa (Tony Soprano, interpretado brilhantemente por James Gandolfini), que é um homem atormentado pela própria fraqueza e pelas pressões de ser o líder de uma organização criminosa. Acabamos desenvolvendo uma empatia pela figura de Tony; olhamos para o abismo da psiquê do personagem, e o abismo nos encara de volta.

Acho que nenhuma outra série conseguiu explorar um tema com tanta profundidade quanto The Wire. Criada pelo jornalista David Simon, a narrativa é construída tendo como ponto de partida uma investigação policial para combater o tráfico de drogas em Baltimore – uma das cidades mais violentas dos EUA. A investigação se desenrola através das seis temporadas, criando um olhar complexo sobre o mundo do crime e do tráfico de drogas, e de como tudo isto se relaciona diretamente com o sistema político e jurídico na sociedade americana. É imperdível.

Rome é uma viagem épica que revela os bastidores sangrentos da transição da República para o Império Romano com uma qualidade espetacular – até hoje o melhor Julio César que já vi. Para ser historicamente correta, a série teve o aconselhamento de historiadores e foi inteiramente gravada nos lendários estúdios da Cinecittà, em Roma.

Você concorda com a ideia de que algumas séries de TV conseguiram atingir uma profundidade dramática próxima de obras da literatura e do teatro? Se sim, qual personagem causou maior impacto em você enquanto espectador?

RC: Atualmente os melhores roteiristas do mercado preferem trabalhar em séries, especialmente porque os grandes estúdios já não se interessam no investimento em roteiros originais – é só reparar na quantidade de filmes baseados em livros e HQs que entram em cartaz nos últimos anos. No meio dessa configuração, o lugar que acolheu de braços abertos a liberdade criativa dos escritores foi a televisão (e, mais recentemente, canais VOD). De modo geral, as séries de hoje abordam temas mais adultos do que os filmes lançados pelas grandes redes no cinema. Tony Soprano ainda é il capo di tutti capi, mas a lista de personagens fascinantes continua com Don Draper, Walter White, Frank Underwood, Tyrion Lannister, Rust Cohle, Titus Pullo, etc…

Como você vê o mercado brasileiro para séries de TV?

RC: Seguindo na corrente inversa da economia, o mercado brasileiro de produção audiovisual mantém um crescimento constante e tem espaço para crescer nos próximos anos, principalmente pela entrada de novos players que buscam conteúdo original. Acho que a principal questão é que ainda não temos roteiristas qualificados com formação para escrever séries. Não estamos acostumados com esse formato e precisamos dominar a técnica dessa maneira de contar histórias. Uma série não é uma novela e nem um filme ‘esticado’ e dividido por capítulos. Uma série exige um trabalho em equipe colossal, uma ‘injeção de DNA’ imensa para ela poder criar pernas e evoluir naturalmente. Não é apenas contar uma boa historia; a criação de uma série é a criação de um universo, de um jogo com regras próprias que devem ser minuciosamente trabalhadas. O desafio está mais no desenvolvimento de conteúdo do que na própria demanda do mercado.

« Older posts Newer posts »

© 2017 Ceriblog

Theme by Anders NorenUp ↑